quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A MERETRIZ: A CARACTERÍSTICA PRINCIPAL DE APOCALIPSE 17 Parte I

Primeiro devemos prestar atenção à visão e à reação que teve João (Apoc. 17:1-6), e depois considerar a interpretação do anjo (vs. 8-18).
"Veio um dos sete anjos que têm as sete taças e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei o julgamento da grande meretriz que se acha sentada sobre muitas águas, com quem se prostituíram os reis da terra; e, com o vinho de sua devassidão, foi que se embebedaram os que habitam na terra. Transportou-me o anjo, em espírito, a um deserto e vi uma mulher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres. Achava-se a mulher vestida de púrpura e de escarlata, adornada de ouro, de pedras preciosas e de pérolas, tendo na mão um cálice de ouro transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição. Na sua fronte, achava-se escrito um nome, um mistério: BABILÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERETRIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA TERRA" (Ap. 17:1-6).

Percebemos três temas principais na visão de João: a prostituta, a besta e Babilônia. Enquanto que a besta e Babilônia já se mencionaram em Apocalipse 13 a 16, a meretriz ou prostituta é o tema novo e central de Apocalipse 17. O interrogante é: Que realidade histórica corresponde a esta meretriz sedenta de sangre durante a era da igreja? É a Roma imperial, a hostil Jerusalém, o poder perseguidor Estado-Igreja da Idade Média, ou é alguma realidade temível que está no futuro?

O enfoque contextual pode abrir uma perspectiva nova sobre este capítulo misterioso do Apocalipse. Ao considerar o contexto dos capítulos 12 e 13, notamos que há uma mulher grávida e uma besta de sete cabeças. Isto requer uma avaliação das duas mulheres simbólicas em Apocalipse 12 e 17 que estão em um contraste intencional entre si. Como vimos antes (cap. XXI desta obra), a mulher pura do capítulo 12 representa o povo fiel do antigo e do novo pacto. Esta "mulher" deu à luz o Messias de Israel (Apoc. 12:1-5), depois foi perseguida e fugiu ao deserto para ocultar-se da vida pública e da sociedade por 1.260 dias simbólicos (vs. 6, 14). Podemos até entender que se tratem dos 1200 anos da história conhecida como “período das trevas”.
Se, se contemplar à meretriz do capítulo 17 como a contraparte da mulher pura de Apocalipse 12, devemos concluir que a meretriz representa a igreja infiel que entrou em uma relação ilícita com os governantes políticos do mundo, "os reis da terra" (ver Apoc. 17:2). Isto esclarece o fato de que a prostituta é capaz de perseguir a todos os dissidentes. João a vê "ébria do sangue dos santos, e do sangue dos mártires de Jesus" (v. 6; ver também 16:6; 18:24).
A igreja medieval não executou a nenhum herege, mas sim entregou os condenados pela Inquisição da igreja, que já tinham sido torturados, aos governantes do mundo para que executassem as sentenças de morte dadas pela igreja.
É espantoso chegar à conclusão de que a prostituta simbólica representa a igreja apóstata. Requer confirmação do contexto bíblico. Tal confirmação vem em essência dos profetas do Antigo Testamento, que descreveu a Israel ou a Judá como uma "prostituta", como a esposa infiel de Jeová.
PROTÓTIPOS DO ANTIGO TESTAMENTO DA PROSTITUTA APOCALÍPTICA
Oséias começou a acusar às dez tribos do reino do Norte, o reino do Israel, declarando: "Um espírito de prostituição está no meio deles, e não conhecem ao Senhor" (Osé. 5:4). Meu povo "consulta o seu pedaço de madeira, e a sua vara lhe dá resposta; porque um espírito de prostituição os enganou, eles, prostituindo-se, abandonaram o seu Deus" (4:12).
Jeremias adotou este mesmo simbolismo para falar de Judá e de Jerusalém: "Tu te prostituíste com muitos amantes" (Jer. 3:1); "Embora te vista de escarlata, embora te adornes com atavios de ouro, embora pintes com antimônio teus olhos, em vão te engalanas; te desprezarão seus amantes, procurarão tua vida" (4:30). Não há dúvida que Jezabel, a mulher pagã do Acabe simbolizava algo assim como um modelo para o quadro do Jeremias de uma Jerusalém apóstata (ver 2 Reis 9:30).
Isaías incluso exclamou com horror a respeito de Jerusalém: " Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela, que estava cheia de justiça! Nela, habitava a retidão, mas, agora, homicidas" (Isa. 1:21).
Ezequiel transmitiu a denúncia mais elaborada de Jerusalém, que serve como a chicote principal do simbolismo da prostituta em Apocalipse 17. As descrições que Ezequiel e João fazem da prostituta merecem uma comparação séria.
A PROSTITUTA APOCALÍPTICA: ANTÍTIPO DO ISRAEL APÓSTATA
Os principais eruditos em apocalipticismo atuais – tais como A. Vanhoye, J. M. Vogelgesang, J-P. Ruiz e outros – mostraram de maneira convincente que a linguagem figurada da prostituta de Apocalipse 17 tem dependência de Ezequiel 16, 20 e 23. Mais que qualquer outro profeta, Ezequiel descreveu a Israel (incluindo Judá e Jerusalém) como a companheira do pacto de Jeová que era infiel, uma prostituta sedenta de sangue que se exaltava a si mesma. O protótipo bíblico está carregado de significado para compreender a seu antítipo em Apocalipse 17 durante o período da igreja. Uma análise cuidadosa de Ezequiel 16, 20 e 23 é essencial para a interpretação de Apocalipse 17, com seu enfoque no tempo do fim.
Tanto Ezequiel como João usam o símbolo da meretriz para acusar a infiel companheira do pacto com Deus das seguintes acusações: imoralidade sexual ou idolatria, opressão e assassinato de seus próprios filhos. Depois que se apresentam as acusações legais, tanto Ezequiel como João procedem em apresentar o mesmo castigo da impenitente. É útil colocar as passagens pertinentes lado a lado embora não há substituto para uma leitura pessoal destes capítulos em toda sua extensão.
A correspondência das descrições do Ezequiel e o Apocalipse é tão evidente que Josephine M. Ford declarou: "O texto que influiu mais sobre o autor do Apocalipse é Ezequiel 16, que é um ataque profético sobre Jerusalém... Sua descrição é tão gráfica como em Apocalipse 17 e 18". (7) Pode-se preferir aqui falar não de um "ataque" mas sim de retribuição divina. Agora comparemos:
EZEQUIEL 16 e 20
O JUÍZO DA PROSTITUTA DE APOCALIPSE 17 e 18
O JUÍZO DA PROSTITUTA
"Eu te cobri de enfeites..." (16:11, BJ).
"Assim te tornavas cada vez mais bela, até assumires ares de realeza" (16:13, BJ). "O quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria, dai-lhe em igual medida tormento e pranto, porque diz consigo mesma: Estou sentada como rainha. Viúva, não sou. Pranto, nunca hei de ver!" (18:7).
"Puseste a tua confiança na tua beleza e, segura de tua fama, te prostituíste, prodigalizando as tuas prostituições a todos os que apareciam. Tomaste dentre os teus vestidos e com eles fizeste lugares altos e de várias cores e aí te prostituíste" (16:15, 16, BJ).
"Tomaste os teus filhos e as tuas filhas que me tinhas dado à luz e os imolaste a elas, a fim de que as comessem. Seria isso menos grave do que as tuas prostituições? Mataste os meus filhos e os fizeste passar pelo fogo, oferecendo-os a elas" (16:20, 21, BJ). "Vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando a vi, admirei-me com grande espanto" (17:6).
"E nela se achou sangue de profetas, de santos e de todos os que foram mortos sobre a terra" (18:24).
"A mulher adúltera acolhe estranhos em lugar do marido" (16:32). "Com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição" (17:2).
"Por tudo isso hei de reunir todos os teus amantes, aos quais agradaste...reuni-los-ei a todos e descobrirei a tua nudez, para que a vejam toda... Entregar-te-ei às suas mãos e eles deitarão por terra a tua colina, arrasarão os teus lugares altos, despir-te-ão dos teus vestidos, tomarão os teus adornos e te deixarão totalmente nua. Porão fogo às tuas casas e executarão juízo contra ti" (16:37-41, BJ). "Os dez chifres que viste e a besta, esses odiarão a meretriz, e a farão devastada e despojada, e lhe comerão as carnes, e a consumirão no fogo" (17:16).
Albert Vanhoye demonstrou que Apocalipse 17:15-18 reflete uma utilização do Ezequiel 16 e 23. (8)
R. H. Charles vai a Ezequiel 23:25-29 reproduzido "em essência" em cada uma das ações levadas a cabo pela besta e seus chifres contra a prostituta. (9) Jeffrey Vogelgesang também vai a João tomando diretamente do Ezequiel 16 e 23 nas visões a respeito de Babilônia de Apocalipse 17 e 18. Declara o seguinte: "O sentido geral de Apocalipse 17 corresponde ao Ezequiel 16 e 23, onde se consideram as obras más da meretriz, depois se pronuncia o veredicto e se proclama o castigo". (10)
Um ponto que geralmente os exegetas profissionais ignoram é a questão de como se relacionam teologicamente entre si Ezequiel 16 e Apocalipse 17, quer dizer, como é que esta correspondência que se reconhece entre estes dois capítulos indica que existe uma tipologia bíblica.
Para a interpretação de Apocalipse 17 é crucial definir a estrutura tipológica entre as silhuetas destas duas prostitutas e os juízos que Deus envia. Não há dúvida de que existe uma analogia estrutural entre as acusações legais e o castigo retributivo das prostitutas em Ezequiel 16 e Apocalipse 17. É inevitável a conclusão de que Apocalipse 17 depende de Ezequiel 16, porque ambas as passagens tratam com o professo, porém apóstata, povo da aliança! Esta conclusão dolorosa foi evitada sistematicamente pela maioria dos teólogos cristãos e os eruditos em exegese, assim como pelos eruditos rabínicos que ficaram tão escandalizados pela linguagem severa de Ezequiel que proibiram a leitura de Ezequiel 16 na sinagoga. (11)
As acusações divinas em Ezequiel 16 são de uma natureza moral: idolatria e infidelidade conjugal. Ambos estão conectados entre si porque o adultério metafórico de Jerusalém com o Egito, Assíria e Babilônia compreendia a adoração dos deuses estranhos desses reis (2 Reis 17:13-20; Isa. 30:1-5; 31:1). A apostasia de Jerusalém na adoração se revela de maneira especial em Ezequiel 23:
"Porque adulteraram, e nas suas mãos há culpa de sangue; com seus ídolos adulteraram, e até os seus filhos, que me geraram, ofereceram a eles para serem consumidos pelo fogo. Ainda isto me fizeram: no mesmo dia contaminaram o meu santuário e profanaram os meus sábados.... e assim o fizeram no meio da minha casa" (Ezeq. 23:37-39; ver também 20:21, BJ).
Jeremias, um contemporâneo de Ezequiel, pôs a descoberto as mesmas práticas de sacrificar os filhos aos ídolos (Jer. 7:10, 30-34). Quando anunciou a destruição do templo de Salomão, "lançaram mão dele os sacerdotes, os profetas e todo o povo, dizendo: Serás morto: De certo morrerá" (26:8).
A meretriz do tempo do fim de Apocalipse 17 é acusada dos mesmos crimes de apostasia no culto, infidelidade sexual e idolatria sedenta de sangue (Apoc. 17:2, 4, 6, 14). Assim como a antiga Jerusalém se tornou inimiga de Jeová, assim a igreja institucional ou denominacionalseria infiel a Cristo, apóstata em seu culto de adoração, e sedenta de sangue com todos os que recusassem prostrar-se ante ela e sua "marca" de adoração.
O castigo da prostituta em Ezequiel 16 e 23 assim como em Apocalipse 17, em essência é o mesmo: Deus chama os antigos amantes para que levem a cabo o castigo da prostituta (Ezeq. 16:37, 39; 23:22; Apoc. 17:16, 17).
Walter Zimmerli resumiu nestas palavras o castigo que aparece em Ezequiel 16: "Os mesmos poderes de quem a comunidade de Deus parece aproveitar-se, tomarão represálias e executarão o juízo de Deus sobre ela... como um juízo que começa pela casa de Deus (9:6)". (12) Por conseguinte, J-P. Ruiz concluiu dizendo: "O que encontramos em Apocalipse 17:16 é uma relocação nova e consciente da linguagem de Ezequiel 16 e 23, e uma transformação real da linguagem profética". (13) O anjo interpretador destaca que a ação destruidora da besta e seus chifres contra a prostituta em Apocalipse 17:16 é o cumprimento da vontade de Deus
"Porque Deus tem posto em seu coração que cumpram o seu intento, e tenham uma mesma idéia, e que dêem à besta o seu reino, até que se cumpram as palavras de Deus" (Apoc. 17:17).
Um olhar mais detido aos oráculos de juízo da antiga e a nova prostituta, revela uma correspondência literária e temática:
EZEQUIEL 16:39 APOCALIPSE 17:16
"Entregar-te-ei nas suas mãos, e derribarão o teu prostíbulo de culto e os teus elevados altares; despir-te-ão de teus vestidos, tomarão as tuas finas jóias e te deixarão nua e descoberta". "Os dez chifres que viste e a besta, esses odiarão a meretriz, e a farão devastada e despojada, e lhe comerão as carnes, e a consumirão no fogo".
A relação teológica entre os castigos das duas prostitutas, a antiga (VT) e a nova (NT), é manifestamente uma relação de tipo e antítipo. Esta tipologia inspirada contém a chave para decifrar a visão desconcertante do tempo do fim que João apresenta: a meretriz do tempo do fim representa a igreja infiel e mundana que voltará a ter a supremacia por um tempo breve sobre os governantes políticos.
J-P. Ruiz chamou nossa atenção a algumas relações notáveis do castigo da meretriz em Apocalipse 17: "… devorarão suas carnes" (v. 16). Aqui vê "uma similitude verbal estreita" entre esta frase de Apocalipse e a de 2 Reis 9 que descreve a predição que Elias faz da morte de Jezabel, a rainha de Israel: "No campo de Jezreel, os cães comerão a carne de Jezabel" (2 Reis 9:36). Ruiz declara o seguinte: "O contexto de 2 Reis 9:36 também corresponde ao de Apocalipse 17:16". (14) A correspondência básica da Jezabel histórica e seu antítipo profético dentro da igreja, já estava indicado na carta de Cristo à igreja do Tiatira:
"Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos" (Apoc. 2:20).
A igreja de Cristo ia permitir dentro de seu seio a uma nova Jezabel, com suas exigências falsas como profetisa de Deus e com seu culto religioso falso (Apoc. 2:20, 23). Os resultados amargos são os mesmos na antiga e na nova Jezabel: o assassinato legalizado e político dos santos de Deus.
Assim como a Jezabel da antiguidade usou a seu marido o rei Acabe para perseguir Elias e os seguidores de Jeová, assim também a Jezabel apocalíptica usa os governantes políticos para perseguir os seguidores de Cristo. O cristianismo apóstata receberá o mesmo juízo condenador de Cristo como o que recebeu Jezabel: "Pois julgou a grande meretriz... e vingou o sangue de seus servos" (Apoc. 19:2; cf. 2 Reis 9:7). Este é o contexto mais amplo da frase do anjo, "devorarão suas carnes", em Apocalipse 17:16. A maldição final do pacto sobre a prostituta apocalíptica se formula como "os dez chifres... a consumirão no fogo" (17:16; ver também 18:8). Na lei de Moisés, este castigo estava reservado para a imoralidade sexual da filha de um sacerdote:
"Se a filha de um sacerdote se desonra, prostituindo-se, profana a seu pai; será queimada" (Lev. 21:9).
Enquanto que o castigo tradicional para o adultério de uma mulher casada era o apedrejamento (Deut. 22:23, 24; João 8:5), no caso de prostituição praticada pela filha de um sacerdote, o castigo era queimá-la. Este castigo apocalíptico da prostituta do tempo do fim assinala uma vez mais à natureza sacerdotal desta "mulher" caída. João informa sua reação à visão de Apocalipse 17:1-6, quando diz: "E, quando a vi, admirei-me com grande espanto" (V. 6). Em realidade, ficou "mudo de assombro" ou "grandemente perplexo", o que é difícil de entender se João tivesse visto só os imperadores romanos perseguidores ou uma Jerusalém hostil. Isso era algo familiar para sua própria experiência. Entretanto, se contemplou a mudança que se levaria a cabo na igreja institucional de Cristo, que a mulher pura chegaria a ser intolerante e a estar sedenta de sangue, isso teria sido verdadeiramente assombroso.
ADMOESTAÇÕES APOSTÓLICAS CONTRA A APOSTASIA PREDITA
A igreja de Cristo ia repetir a história do Israel antigo, que em geral foi uma história de apostasia. O apóstolo Paulo advertiu contra a repetição da apostasia do Israel na igreja institucional. Disse Paulo:
"Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles... Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia" (1 Cor. 10:6, 7, 12).
Paulo também empregou a metáfora profética de uma mulher para descrever à igreja quando escreveu:
"Pois lhes hei desposado com um só marido, para lhes apresentar como uma virgem pura a Cristo. Mas temo que como a serpente com sua astúcia enganou a Eva, seus sentidos sejam de algum jeito extraviados da sincera fidelidade a Cristo" (2 Cor. 11:2, 3).
Expressou seu temor justificado nesta predição sinistra quando se dirigiu aos anciões da igreja de Éfeso:
Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai" (At. 20:29-31).
Inclusive caracterizou esta apostasia vindoura (em gr., apostasia] dentro da igreja como uma rebelião do "homem do pecado" (em gr., anomías] (2 Tes. 2:3), que continuaria e permaneceria todo o tempo, até a segunda vinda de Cristo (V. 8).
Entretanto, o Apocalipse de João desenvolve o tema da apostasia sistematicamente em Apocalipse 12 a 19. Aqui a igreja pós-apostólica institucional é descrita como uma "meretriz",porque sendo a "mulher" de Cristo, unir-se-ia ilegalmente com os reis da terra:
"Com quem se prostituíram os reis da terra; e, com o vinho de sua devassidão, foi que se embebedaram os que habitam na terra" (Apoc. 17:2).
Um intérprete da escola histórica de interpretação comentou:
"O fato de que Babilônia é distinta dos reis da terra, embora esteja ilegalmente unida a eles, é uma prova positiva que Babilônia não é o poder civil. O fato de que o povo de Deus está em seu meio precisamente antes de sua derrocada, demonstra que é um professo corpo religioso. Portanto, pensamos que deve ser evidente que a Babilônia de Apocalipse 17 simboliza à igreja professa que está ilegalmente unida ao mundo". (15)
O IMPERATIVO DA HERMENÊUTICA DO EVANGELHO
Alguns reconhecem que a meretriz de Apocalipse 17 representa ao professo povo do pacto de Deus e sua infidelidade ao Deus do pacto. J. M. Ford o explica assim: "É o pacto o que a faz noiva, a ruptura do qual a converte em adúltera". (16) O ler o Apocalipse à luz do antecedente do Antigo Testamento foi um adiantamento fundamental no enfoque do livro do Apocalipse, e muitos até falham em apreciar a importância deste fato. Não obstante, esta chave do Antigo Testamento não é uma garantia da aplicação histórica de Apocalipse 17. Necessita-se também estar consciente da tipologia cristã que o Novo Testamento revela em sua aplicação do idioma do pacto hebraico. (17)
Rechaçando (AFASTANDO) a aplicação popular de que a meretriz se refere a Roma imperial, esta erudita católica (Universal) literalizaria sua aplicação da meretriz de Apocalipse 17 à "Jerusalém infiel" e a seu sacerdócio. Diz J. M. Ford: "Estes textos [dos rolos de Qumran], juntos com os do Antigo Testamento, assinalam que a meretriz em Apocalipse 17 é Jerusalém, não Roma". (18) Por conseguinte, consideraria a "a antiga Jerusalém, manchada", em vez de Roma, como a verdadeira contraparte da Nova Jerusalém". (19)  Mas este princípio de aplicação literal é uma violação fundamental da hermenêutica do evangelho, porque não está orientada a Cristo e a seu povo do novo pacto.
O Apocalipse está construído quase completamente com termos e imagens hebraicas, como o reconhecem todos os exegetas. Portanto, para evitar as interpretações especulativas, é essencial aplicar a hermenêutica do evangelho a toda a linguagem hebraica do pacto que aparece no Apocalipse. O idioma e o simbolismo no Apocalipse continuam sendo os do pacto, mas em termos do novo pacto de Jesus Cristo. Este idioma pactual cristocêntrico está firmemente estabelecido em Apocalipse.
O MISTÉRIO DE BABILÔNIA, A GRANDE
A meretriz tem um título escrito sobre sua frente: "Mistério: Babilônia, a grande" (Apoc. 17:5). Este "mistério" não está restringido à identidade da prostituta. Disse explicitamente o anjo: "Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem as sete cabeças e dez chifres" (v. 7).
 Com respeito a isto, declara J-P. Ruiz:
"Tudo o que aparece no capítulo 17:7 e 8, e não precisamente os vs. 15-18, têm que ver com a mulher, a cujo juízo se convida como testemunha a João. A repetição de guné nos vs. 7, 9 e 18 serve como o recordativo literário de que a prostituta e a besta pertencem ao mesmo mustérion". (20)
Isto significa que o "mistério" de a grande Babilônia inclui a visão de João como um tudo, a compreensão do qual requer "a mente que tenha sabedoria" (Apoc. 17:9). Necessitou-se sabedoria já antes para entender o "número da besta" (13:18). Requer a atividade intelectual de calcular o número da besta (v. 18). A mesma atividade mental se necessita em Apocalipse 17, porque indica a aplicação histórica das sete cabeças da besta escarlate e de seus dez chifres:
"Aqui é necessário a inteligência que tem discernimento: as sete cabeças são sete montes (em gr., óre: 'montes'] sobre os quais a mulher está sentada. São também sete reis, dos quais cinco já caíram, um existe e o outro ainda não veio, mas quando vier deverá permanecer por pouco tempo" (Apoc. 17:9 e 10, BJ; ver RA, RC, que também traduzem "montes").
"E os dez chifres que viste são dez reis, que ainda não receberam o reino, mas receberão o poder como reis por uma hora, juntamente com a besta" (Apoc. 17:12).
Toda a linguagem figurada é parte do "mistério" de Babilônia, a Grande. A sabedoria sugere que façamos remontar toda esta linguagem figurada à linguagem profética hebraica antes que busquemos aplicar os símbolos à era da igreja. Ao mesmo tempo que detectamos uma correspondência inegável da prostituta apocalíptica com a prostituta dos oráculos de condenação de Ezequiel (caps. 16 e 23), observamos que a besta com as cabeças e os chifres em Apocalipse 17 depende essencialmente da besta com dez chifres do Daniel 7. Portanto, devemos relacionar Apocalipse 17 com Daniel 7. Ambas as visões apocalípticas estão conectadas de maneira indissolúvel. Ruiz reconheceu isto em sua análise de Apocalipse 17:
"Entretanto é uma mensagem unificada oferecida em termos do Antigo Testamento, porque o tema da besta está extraído de Daniel, enquanto que o tema da prostituta, sua atividade e seu destino, é tomada de Ezequiel". (21)
O MOMENTO HISTÓRICO EXATO DA BESTA RESSUSCITADA
O segundo tema de Apocalipse 17 é a besta escarlate sobre a qual está sentada uma prostituta. João é levado "em Espírito ao deserto". Ali viu "uma mulher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres" (Apoc. 17:3).
Neste ponto recordamos que o dragão (Apoc. 12:3) e a besta do mar (13:1) têm igualmente sete cabeças e dez chifres. Entretanto, cada um dos três animais têm alguns característicos únicos que diferem dos outros. O dragão tem sete coroas em suas cabeças (12:3), enquanto que a besta do mar tem dez coroas sobre seus chifres (13:1). A besta escarlate não tem coroas, mas leva a prostituta. Por conseguinte, a besta escarlate do capítulo 17 não é idêntica à besta que sobe do mar no capítulo 13 ou com o dragão do 12. Por outro lado, as sete cabeças e os dez chifres da besta escarlate estabelecem uma conexão definida entre a besta que sobe do mar e o dragão.
O anjo interpretador solicita que se exerça sabedoria especial para entender as sete cabeças da besta revivida (Apoc. 17:9). Ao que parece, o momento exato das duas últimas cabeças, a sexta e a sétima, é um momento crucial na era da igreja para manter um conhecimento exato do plano de Deus para nosso tempo.
De nossa análise de Apocalipse 12 a 14 aprendemos que estes capítulos revelam progressivamente todo o alcance da era da igreja. Enquanto que Apocalipse 12 se enfoca principalmente no começo da era da igreja (o nascimento e a coroação do Messias, vs. 1-5), e nos séculos pós-apostólicos (a mulher se oculta no deserto por 1.260 dias simbólicos, vs. 6, 14), Apocalipse 13 e 17 mudam o foco principal da profecia cada vez mais no tempo do fim da era da igreja (em Ap. 13:15-17; 17:12-14), ampliando cada vez mais o conflito final de Apocalipse 12:17.
As sete cabeças se descrevem explicitamente como "reis" sucessivos ou poderes mundiais,  "dos quais caíram cinco, um existe, e o outro ainda não chegou" (Apoc. 17:10). É claro que a besta demoníaca exerce seu governo opressor por meio de uma cabeça de uma vez no curso da história. As sete cabeças pertencem igualmente ao dragão (cap. 12), à besta que sobe do mar (cap. 13) e à besta escarlate que sobe do abismo (cap. 17). Não podemos dar por sentado que há 21 cabeças, mas só sete são as que representam todo o lapso de tempo da luta de Satanás contra o povo de Deus. (22) Isto significa que o dragão, a besta do mar e a besta escarlate, cada uma representa uma cabeça particular ou poder mundial. Relacionando cada animal ao período de tempo central dos "1.260" dias (12:6) ou "42 meses" (13:5), estamos de acordo com John N. Andrews, que afirmou:
”O período próprio de cada um parece ser este: o dragão antes dos 1.260 anos, a besta do capítulo 13 durante esse período, e a besta do capítulo 17 do tempo da ferida mortal e a cativeiro no fim daquele período". (23)
As sete cabeças de cada uma das três bestas de Apocalipse 12, 13 e 17 expressam a continuidade da perseguição por parte destes poderes mundiais ímpios. Todas estão relacionadas essencialmente pelo mesmo espírito de ódio contra Jesus Cristo e estão decididas a proscrever e executar os companheiros do Cordeiro de Deus. Cada "cabeça" dos poderes estatais governantes na era da igreja está motivada pelo mesmo dragão, ou Satanás (Apoc. 12:9).
Postar um comentário